Ser enfermeiro insatisfeito!

Ser enfermeiro insatisfeito!!!

Escolhi o que queria ser, quando não sabia quem era.

Escolhi a profissão para exercer, tinha de escolher!!!

A vida é feita de sequências, sem nenhuma pausa ou espera,

somos formatados para seguir aquela ordem, aquela linha.

Estudar, escolher a àrea, quando mal sei escolher o que vestir.

Estudar, terminar o secundário, escolher o que seguir.

Tomo a decisão e traço a vida que há-de ser a minha.

E são muitos, quase todos, os que terminam o escolhido curso,

e procuram, candidatam-se, e acabam por arranjar

aquilo a que se chama emprego, bicho difícil de encontrar!!!

E são profissionais, sortudos por aplicar o que andaram a estudar.

E eis que um dia começam a questionar, sentindo-se culpados até,

Se é isto que vão fazer a vida toda, se se conseguem imaginar.

Estes versos que escrevi espelham muito do que sinto e do que acho ser a realidade de muita gente. Aos 14-15 anos temos de escolher uma área para estudar, ciências, economia, humanidades, artes, desporto, seja o que for, temos de, logo aí começar a traçar o nosso caminho.

Novamente, aos 17-18 anos, correndo tudo sem chumbos ou outros atrasos, temos de escolher se queremos ir para a universidade ou não, e caso decidamos ir, escolher aquilo que vamos ser.

A minha questao é, se aos 31 anos, ainda hoje, às vezes questiono se é este o meu futuro, a decisão que tomei aos 18 anos, porque tinha de tomar, não será precipitada?

Acredito que muitos de nós se debatam com isto. Aos 18 anos posso ter escolhido ser enfermeira, muito assertiva e confiante na decisão que tomei, acreditando até, durante alguns anos, que era apenas e só talhada para isso!

Chego aos 31, e embora goste do que faço, da essência da Enfermagem em si, consciencializo-me, não raramente, da minha insatisfação com a profissão que escohi, e questiono-me se não seria mais feliz noutra, ou se não devo arranjar algo que me complete mais, sem abandonar a profissão com que cresci.

Conheço bastantes enfermeiros que se sentem como eu, que procuram noutras artes um hobbie ou uma segunda, até mesmo uma outra profissão. Não sei se esta realidade acontece noutras profissões, mas a impressão que tenho, correndo o risco de estar a ser parcial ou de emitir uma opinião limitada, é que isto é mais frequente na Enfermagem, do que em qualquer outra área.

Posto isto, em conversa com uma linda e determinada mulher que, por sinal, é enfermeira, ou que ainda é enfermeira, achamos interessante partilhar com o Mundo, as opiniões destes enfermeiros, alguns até que abandonaram a Enfermagem e se dedicaram a outros ofícios, que acreditaram fazê-los mais felizes e realizados.

Nos próximos tempos, vou apresentar, aqui no blog, entrevistas que fiz a enfermeiros, alguns que deixaram a enfermagem, outros que tentam deixar. Espero que gostem de ler e de acompanhar. Conto com os vosso comentários também e, se alguém pretender colaborar nestas entrevistas, é só contatar-me.

 

 

22 Comments

  1. Bom texto Ana! Eu sou Psicóloga e, mesmo sendo um bocadinho mais nova, também sinto muitas vezes o mesmo. Mas no meu caso acho que é por ter muito pouco trabalho neste momento. Questiono-me muitas e muitas vezes se não deveria ter seguido outro curso, se não devia ter pensado mais nas saídas profissionais. Mas tens toda a razão, se hoje em dia temos dúvidas como é que esperavam que não as tivessemos aos 17/18 anos?

    Beijinho

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  2. Como eu te entendo! Não sendo eu enfermeira de formação, dou por mim a fazer a mesma pergunta: será que é isto que eu quero fazer para o resto da minha vida? Cabe-nos a nós a escolha do rumo da nossa vida. Ou pelo menos tentamos … Bjs

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  3. Rita Azevedo

    Como me identifico com o teu texto… e acredita… não acontece só na Enfermagem. É como dizes… nem sabemos qual roupa vestir. É muito cedo sim para fazer escolhas. Não sendo eu enfermeira, identifico-me, e muito, com o teu desabafo…

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  4. Olá Ana. Eu mudei radicalmente de vida aos 34 anos. de profissão e até de país. não sinto que tenha perdido tempo nas opções que fiz aos 18 anos. Mas sinto que ganhei vida – e me descobri – nas opções que fiz aos 34. beijinho.

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  5. elizabetereis

    Eu nos meus vinte anos (este Setembro passado) escolhi um curso por ser um curso que sempre me interessou. Não é enfermagem, mas sim outro curso – e a escolha foi dificultada porque o dinheiro faltava para ir para outra universidade e tive de reger-me pelos cursos existentes nesta, na mais perto da minha casa. Chegando ao fim do primeiro semestre, atingiu-me: não é isto que quero e a meio deste semestre vocalizei a minha opinião a umas colegas. Mas é a área… eu não segui o que gostava, segui o que o meu intelecto gostava. E não é a mesma coisa. Pelo menos não para mim, pois não me via nessa área desde o dia da inscrição. Não digo que não tinha capacidade, mas não me via nela, nem digo que não gostava – só não era para mim. De certeza que a minha situação não é única, nem só no meu curso (aconteceu a uma prima minha igualmente, noutro curso), mas é certo que nunca pensei que houvessem tantos enfermeiros com essa opinião. É uma vertente que fiquei curiosa de ler, é bom ver o outro lado de quem utiliza o seu tempo para ajudar os outros. Fazes bem em expor esse lado, vou acompanhar de certeza 🙂

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  6. ter escolhido um curso não significa ter apenas esse caminho na vida. hoje nós somos o que escolhemos, e mudamos quando percebemos que precisamos de evoluir. é a riqueza de vivermos “no Futuro”. eu não escolhi o meu caminho, foi ele que me encontrou, mas aproveitei cada dia, e já dei muitas piruetas…
    o mais importante é não ter medo da mudança, e acreditar que somos capazes.

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  7. Está fantástico o desabafo… Sou apenas uma estudante no 2º ano de Enfermagem e foi, sem dúvida, uma luta mostrar a tudo e a todos que era Enfermagem a minha escolha! (Esta luta só se deveu por todos os pré-juízos feitos à profissão de Enfermeiro)
    Um enfermeiro tem força, um aluno de enfermagem tem força, um aspirante a enfermeiro tem força… Porque é isso que caracteriza um enfermeiro…
    Não vou dizer que é um mar de rosas… nem vou dizer que todos os dias me levanto as seis e meia da manhã com um sorriso para ir para a faculdade aprender a ser aquilo que escolhi ser (e que escolha radical essa)!
    É nos dias de mais estudo que me questiono se é isto que quero fazer o resto da minha vida… É quando me deparo com mais e mais planos de cuidados, que duvido de mim enquanto possível futura enfermeira… É em semanas de avaliações e mais avaliações práticas que ponho em causa se serei suficientemente forte para aguentar um estágio e, mais tarde, um emprego como profissional de enfermagem.

    Da minha muito verde experiência, começo a concluir que a garra do enfermeiro português está em saber ultrapassar adversidades, em agarrar as (poucas) oportunidades e em questionar constantemente a sua qualidade e a escolha que fez quando tinha apenas 18 anos.

    Estou nos meus 20… Sou uma pessoa que gosta de ter tudo sob controlo e espero chegar aos 31 e ter coragem suficiente para questionar as escolhas que fiz nos meus 18 😉

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    1. Obrigada pelo fantástico comentário! Nunca duvides da qualidade do enfermeiro português. Somos muito bem formados, com conhecimentos muito amplos, adaptamo-nos muto facilmente. O que nos desmotiva é que isso só é reconhecido fora do País, porque os nossos enfermeiros são muito reconhecidos, à exceção do sítio que nos formou. Eu gosto muito de ser enfermeira, só não gosto nas condições atuais e sentindo-me só mais uma batata do pacote.

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  8. Sinceramente não acredito que haja neste momento enfermeiros satisfeitos, isto falando do “Público “…com toda esta precariedade, é impossível, mesmo para quem ama o que faz, se sentir satisfeito…

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  9. Fernando Pacheco

    Ola Ana, sou enfermeiro de carreira, ja fui auxiliar, tecnico e ultimante sou enfermeiro chefe de um setor do hospital em que trabalho. É interessante a semelhança da sua realidade para a nossa pois compartilhamos da mesma duvida. Depois que terminei a graduação parace que ficou mais enfatizado estes pensamentos. Infelizmente em nosso pais o respeito a profissao da enfermagem esta a longe da realidade dos paises desenvolvidos. Por aqui ainda ha aquela grande cultura que os profissionais da area medica são “semi deuses” e todo o resto é apenas subalternos. Mas gostei do seu post, vai atrair bastante pessoas da area para compartilhar suas experiencias…..

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