Ser enfermeiro insatisfeito!

Respostas às minhas perguntas “Ser enfermeiro insatisfeito #6”

11126889_898594330179697_1743600118_nE para comemorar o Dia Internacional do Enfermeiro, decidi hoje publicar as minhas respostas às minhas perguntas. Espero que gostem de ler.

Conta-nos um pouco sobre ti.

Sou a Ana Azevedo, tenho 31 anos, nascida e criada em Braga.

Qual o teu percurso  académico/formativo?

Estudei sempre em Braga, até ao 12.º ano. Sempre fui boa aluna, aplicada, estudiosa. Em 2001, concorri a Enfermagem. Foi um ano em que as médias foram super altas e, com uma média de 16,4 valores entrei em Vila Real, Trás-os-Montes, e foi lá que fiz os quatro anos de Enfermagem.

Acabei em 2005 e tive a sorte de arranjar emprego em Braga. Em 2008, como orientava muitos alunos, sentia necessidade de aprofundar a parte das teorias e da investigação, mais propriamente, a parte relativa a escrita de relatórios de estágio, fundamentação teórica, por isso, concorri ao Mestrado em Ciências de Enfermagem no ICBAS.

Terminei o Mestrado em 2010, defendi a minha Tese, e enviei alguns currículos para Escolas de Enfermagem, com esperança de colaborar com alguma, já que sempre gostei de ensinar e gostava, e ainda mantenho essa vontade, de um dia ensinar futuros enfermeiros. Até hoje, nada!!!

 

E a tua experiência profissional?

Comecei a trabalhar, em 2005, numa Unidade de Adolescentes. Estas Unidades são muito escassas no nosso País e, pela particularidade desta faixa etária, considero que se reveste de grande importância, o internamento dos adolescentes em Unidades específicas. Por pensar assim, e por na altura trabalhar numa Unidade de Adolescentes, desenvolvi a minha Tese neste contexto. Entretanto, com as alterações inerentes à transferência do Hospital de São Marcos, público na altura, para uma gestão privada, as equipas de Enfermagem das Unidades de Pediatria Crianças e Pediatria Adolescentes fundiram-se e eu ganhei experiência com crianças, desde o mês de idade.

Em 2011, mudámos de instalações do Hospital. Antes de isto acontecer, enviei os resultados da minha Tese, assim como algumas propostas para uma futura Unidade de Adolescentes no Hospital Novo, à Administração. Estava esperançosa que dessem atenção ao resultado da minha investigação, e que talvez me convidassem para conversar sobre pequenas alterações, na construção da Unidade de Pediatria, obviamente tendo em atenção os custos, de modo a adaptar esta Unidade para receber adolescentes propriamente. Nada disto aconteceu e eu fiquei muito desiludida.

Em 2011, ao mudar de instalações, também mudei de serviço, e passei a trabalhar no Serviço de Urgência do Hospital, e integrei a equipa de enfermagem da Urgência Pediátrica. Nesta altura fiquei tão triste com a falta de interesse e disponibilidade demonstrada para com o esforço que eu tive com a minha investigação, que decidi mudar de área e pedi transferência para o Bloco Operatório, uma área da Enfermagem que também me fascinava.

Em 2012, fui transferida para o Bloco Operatório, onde estou atualmente, a exercer funções de enfermeira de anestesia.

És enfermeira há quanto tempo?

Vai fazer 10 anos, este ano, que sou enfermeira.

 

Porque escolheste seguir enfermagem?

Não sei bem porque decidi ser enfermeira, mas sei que, na altura, foi uma decisão assertiva da minha parte. Lembro-me que, quando era pequenina, queria ser professora de Inglês. Depois, segui a área de Ciências, porque sempre me fascinou a Biologia e, ao longo do tempo, decidi que Enfermagem era o que queria seguir, porque é pura ciência aliada a humanismo. E assim foi!

 

Qual o teu sentimento relativamente à enfermagem atualmente?

Eu gosto de ser enfermeira. Gosto do papel que a enfermagem desempenha na Saúde. Só não gosto da falta de reconhecimento que sofremos. Somos tantos e, no entanto, não nos conseguimos fazer perceber. A enfermeira não é só aquela que dá picas, mede tensões e dá banhos. Ainda hoje assisto a pessoas a dizer “Veio a enfermeira fazer a cama” ou “Veio a enfermeira trazer-me a comida”. Não é que queira menosprezar quem faz isto, antes pelo contrário. Não tenho problema nenhum em fazer estas tarefas se for preciso, não me cai nada ao chão se tiver que o fazer, e dou muito valor ao trabalho bem feito das assistentes operacionais, inseridas na equipa que assiste os doentes.

Mas as pessoas ainda não perceberam o real papel dos enfermeiros na saúde. Nós somos profissionais qualificados, com conhecimentos sólidos. Somos imprescindíveis na equipa multidisciplinar e trabalhamos que nos fartámos.

O enfermeiro dos Cuidados de Saúde Primários (Centros de Saúde) tem um papel crucial na educação para a saúde das pessoas, na vigilância, no acompanhamento, no apoio domiciliário. O enfermeiro das consultas hospitalares idem. O enfermeiro das enfermarias hospitalares é quem acompanha o doente nas 24 horas do dia, auxilia nos cuidados de higiene, monitoriza a evolução do doente, diagnostica problemas físicos e psicológicos, prepara o doente e a família para o momento da alta, articula com os Cuidados de Saúde Primários. O enfermeiro das Unidades especializadas, como Cuidados Intensivos, Bloco Operatório, Neonatologia, entre outras, é um enfermeiro diferenciado, sente passar pela sua mão, todos os dias, a vida dos doentes.

Podia continuar aqui a dar exemplos, mas tornaria esta entrevista cansativa. Mas as pessoas ainda não perceberam, e eu acho que por nossa culpa, a diferenciação, a importância e a qualidade dos enfermeiros portugueses. Por alguma razão somos tão valorizados no estrangeiro.

Aqui, no País que nos formou, somos, muitas vezes, qualifcados de ajudantes de médicos, passando completamente ao lado, o nosso peso no Sistema de Saúde. Somos completamente minorizados, subvalorizados social e economicamente, e isso leva a uma revolta que está instalada no seio dos enfermeiros.

Eu gosto de ser enfermeira, não gosto de não ver valorizado o meu trabalho, de ter de trabalhar de noite, fins de semana e festas, sem ser recompensada por isso.  Escolhi ser enfermeira sabendo destas especificidades do trabalho, mas também achava que seria recompensada por isso, porque trabalho quando a minha família está em casa, e porque sou uma das profissões de risco.

Eu gosto de ser enfermeira mas não gosto de pensar que, no meu País, começam a oferecer o salário mínimo aos enfermeiros.

Eu gosto de ser enfermeira, mas não gosto de assistir à falta de união entre nós, à classificação de enfermeiros de primeira, de segunda e de terceira, quando todos temos os mesmos direitos. Dreitos esses que foram sendo adquiridos desde o 25 de Abril, pelo qual muitos colegas lutaram, pelo reconhecimento dos enfermeiros como profissionais de qualidade, e que se vêm perder nestes últimos anos.

Mas ainda não perdi a esperança de deixar de me sentir mais uma no meio da corrente. Ainda não perdi a esperança de conseguirmos dar a volta ao assunto e de nos voltarmos a afirmar. Fico-me por aqui, porque muito mais haveria a dizer.

 

Tens interesse noutra área, nomeadamente em alguma que já pensou investir, ou até trocar a Enfermagem por isso?

Quem me conhece sabe que sou uma mulher de muitos ofícios. Não gosto de estar quieta e estou sempre a inventar.  Mal acabei o curso de Enfermagem, decidi fazer o Curso de Formação de Formadores e, durante muito tempo, dei formação em cursos profissionais, tudo na área da Biologia, Primeiros Socorros e Higiene.

Depois tirei um curso de Manicure e Pedicure e, durante algum tempo, fiz isso nos meus tempos livres.

O meu último desafio é o blog, que me dá muito gozo. Adoro escrever e o blog alia o meu gosto pela escrita com outras paixões.

Confesso que, nos momentos de mais desânimo, já pensei em fazer outra coisa qualquer em vez da Enfermagem, mas acabo sempre por concluir que a Enfermagem, a Ciência, é a minha praia.

 

O que pretende estar a fazer daqui a uns anos?

Fui eu que redigi esta pergunta, mas confesso que a acho muito difícil de responder.

Sendo muito sincera, gostava muito de tornar mais útil o meu Mestrado. Quem sabe, um dia, a Enfermagem retoma o seu lugar, eu tiro uma especialidade ou um Doutoramente e consigo ensinar os futuros enfermeiros. Acho o papel de quem os está a formar na escola CRUCIAL. Falta a “formatação” das cabeças dos jovens enfermeiros do nosso valor, falta que eles venham consciencializados de que enfermagem não significa “serviçalismo”, falta que eles percebam, durante o curso, da ponderância da nossa profissão.

Não sei!!! Como já disse, sinto que algo de muito bom me está reservado nesta área. A ver vamos.

Quando iniciei esta rubrica do “Ser enfermeiro insatisfeito” não foi para minorizar a nossa profissão. Antes pelo contrário! Foi para refletirmos, para dar a perceber um pouco mais ao Mundo o que se passa connosco, foi só mais um pequeno passo, na esperança de ajudar à mudança.

 

 

6 Comments

  1. Orlanda Pereira

    Sra. Enfermeira, sou filha de um colega seu, que se afastou do serviço de saúde por causa do desinteresse dos seus pares no cuidado para com os doentes. Ja não esta entre nós e mais do que a mim, ficou a fazer falta ao mundo pelos segredos que consigo levou.
    Ser enfermeiro não é para qualque um, mesmo um medico não tem tanta capacidade de resposta como voces.
    Seguir a carreira do meu Pai era o meu sonho, mas a vida trocou-me as voltas.
    Agora vou ser eu a trocar as voltas á vida, desistir nunca.
    Por favor nunca esmoreça, há e vai haver sempre alguém que lhe vai dizer-Obrigada Sra. Enfermeira, nem que seja com o olhar.
    Bem haja pelo seu trabalho.
    Felicidades.

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