A aventura da maternidade

Inveja boa 1/2

Não me batam já no início do texto, continuem a ler, dando-me o benefício da dúvida. É isto que tenho a dizer a quem me conhece bem e a quem disse, várias 12597035_1021058717933257_1918931300_ovezes, no final da minha gravidez, para me baterem quando eu falasse em ter outro filho! Não me batam também vocês, meus seguidores, por eventualmente acharem egoísta isto que digo.

Aviso, desde já, que esta publicação vai ser dividida em duas, sob pena de ficar grande demais, e não vos quero maçar muito num só dia.

Eu estou em alguns grupos de Facebook de grávidas e mamãs, em que há partilha de experiências e, um destes dias, ao ler um post sobre trabalhos de parto e gravidezes, dei por mim a invejar – mas uma inveja boa – algumas compinchas que por lá andam.

Confesso que a gravidez não foi, para mim, um estado de graça! Muito longe disso, aliás! Verdade seja dita, ninguém me disse que ia ser fácil, mas sou daquelas que ainda pensa, frequentemente, que as coisas só acontecem aos outros, e só me apercebo que não é assim quando me vejo nelas. Começo a mudar estas expetativas, e começo a assumir que eu sou “os outros” para os outros (não sei se me fiz entender).

Não é segredo nenhum que sofri um aborto espontâneo aqui há uns tempos, o que, desde logo, transporta alguma carga emotiva mais pesada para uma gravidez seguinte. Todos sabemos que é perfeitamente natural abortar, no início de uma gravidez, mas mesmo racionalizando isso, acabamos por nos preocupar mais quando voltamos a engravidar. Passa a etapa psicológica do primeiro trimestre, vamo-nos sentindo mais confiantes e capazes de anunciar a desejada gravidez, e tudo começa a fluir melhor. Desde este momento, até sensivelmente às 18 semanas, senti-me bem, enérgica, com o cansaço normal depois de um dia de trabalho, até que um dia me quis levantar de manhã, e todo o mundo girava. Sim, eu sei que ele gira, mas normalmente não tenho noção desse movimento em torno do Sol, quando me levanto da cama. Foi numa bela manhã de sol, em que o meu mundo não parava de girar, que o meu querido obstetra ponderou eu estar com alguma hemodiluição e me mandou para casa.

E dizem vocês: “Que maravilha ter vindo para casa, curtir a gravidez”. Até seria, ainda por cima porque era Verão e toda a grávida adoraria ter imenso tempo livre para banhos de sol e compras para o bebé – e acredito que deve ter sido isso que muitos colegas meus achavam que eu estaria a fazer -, mas não foi o meu caso. Demorei cerca de um mês a conseguir fazer parar de girar o meu mundo e a sentir-me, de volta, uma grávida sadia. Sã, mas pálida – em pleno Verão, como é isto possível? – porque não dá muito jeito apanhar sol na moleirinha quando ela anda à roda.

Não vou mentir que, após este mês, me comecei a sentir melhor e aproveitei o tempo livre que estar em casa me proporcionava, para curtir as compras para a minha pequena rainha e para dar umas voltas. Mais uma vez, este sol não brilhou por muito tempo porque, às 30 semanas fui empurrada para o meu sofá, devido a uma insuficiência do colo uterino. Aqui começou a verdadeira saga da grávida chata. Sob pena de dar à luz antes do tempo, vi-me obrigada a um repouso relativo, saindo apenas para consultas e pouco mais. Costumo ser má doente, mas quando estamos grávidas percebemos que a consequência dos nossos atos já não nos afeta somente a nós, de modo que me vi obrigada – principalmente pela minha consciência e bom senso – a descansar, e muito!

Tanto descansei que a nossa pequena rainha se aguentou dentro da sua piscina particular até às 40 semanas, altura em que induzimos o parto porque, justiça seja feita, eu já não aguentava o meu mau feitio, assim como o meu marido, amigos, família e, acredito, até o obstetra! Não julguem que me é fácil admitir isto mas, no final da minha gravidez, eu já estava perto da depressão, ansiosíssima por desovar e ter a nossa filha cá fora. Talvez porque já tinha estado parada por duas vezes em muito pouco tempo, por conta de duas cirurgias ao pé, foi-me difícil tolerar as semanas de repouso durante a gravidez, assim como me foi muito complicado gerir as minhas emoções, além do que o mau estar provocado pelo peso da barriga sobre um colo do útero frágil era bastante.

Posto isto, às 40 semanas induzimos o parto, um processo algo longo, que não foi nada facilitado, primeiro pela ansiedade em que eu me apresentava e acabei por transmitir às pessoas mais próximas, depois porque, apesar de eu ter advertido várias vezes que o meu epidural não estava a funcionar, não me foi dado crédito- nem como parturiente, nem como enfermeira que trabalha em anestesia atualmente – e eu passei umas valentes horas a pensar com as contrações à antiga! Bem sei que antes era assim, sem epidural, au naturel, mas eu não estava preparada para isso.

Depois de algumas horas, lá me foi trocado o epidural e eu fiquei no céu! Dilatação feita, passo a apresentar-me como uma parturiente calma, colaborante e SEM DORES! Não dá para negar que me ficaram más recordações destas horas, mas trago no coração os profissionais que me deram crédito, apoio e força. Há bons e maus profissionais em todo o lado e, apesar desta peripécia infeliz e desnecessária, eu tive excelentes profissionais a cuidar de mim, e é desses que me devo recordar e agradecer. 

Chegados a este ponto, a cavalaria chegou com tudo para sacar a Marta cá para fora, mas acabei numa mesa de cirurgia, a ser submetida a cesariana, e eis chegado o momento, acredito que o mais feliz da minha vida, quando vi a carinha da minha filha.

Tudo está bem quando acaba bem, passado uns dias, mãe, pai e filha voltam para casa e esperam que as peripécias acabem. Mas será que acabaram mesmo?

Para ler a segunda parte deste texto, clicar aqui.

 

17 Comments

  1. Olá, Ana!
    Aguardo a continuação da sua história…
    Eu tenho 44 anos e dois meninos maravilhosos (14 e 11 anos).
    Tive um abortamento espontâneo (minha primeira gravidez) também. E no primeiro filho, tive que ficar uns bons meses de repouso em casa.
    Ter filhos não é nada fácil… Mas percebo que hoje em dia eu não conseguiria imaginar minha vida sem eles!
    Um beijo grande!

  2. É curioso, porque eu sigo alguns blogs de mães – acho-lhes piada – e a pouco e pouco toda a gente deixa de ter receio de admitir que a gravidez não é um mar de rosas, e pode até ser bem o contrário. É como se todo o mundo esperasse que as mães, só porque vão ter o bebé que tanto desejam, tivessem a obrigação de amar a gravidez, mesmo quando ela traz imensas chatices. E estas partilhas são óptimas – diria essenciais – para toda a gente, senão as pessoas não sabem pois não se fala e acabam por achar que não se deviam queixar, e até se devem sentir mal com isso! Venha a próxima parte, quero saber como foi! 😀

    1. Não tenho problema nenhum em admitir que não gostei de estar grávida Carina. AMO a minha filha, mais do que tudo neste mundo, passaria por tudo outra vez, só para a ter comigo, mas foi-me muito complicado estar grávida. As hormonas controlaram-me completamente 🙂 Mas se me perguntarem se vale a pena, não tenho a mínima dúvida que sim. Beijos

  3. Meu marido e eu estamos começando a conversar a respeito de filhos e eu tenho lido bastante a respeito de partos e gravidez. Relatos como o seu são importantíssimos para quebrar esse mito de que a gravidez sempre vai ser um momento leve e mágico.
    Fico feliz em saber que no final das contas tudo correu bem e que vocês três estão em paz e sadios! Desejo o melhor para sua família!
    Beijos!!
    Blog Amanda Hillerman

    1. Mágico é sempre Amanda. Sentir a nossa filha mexer lá dentro, começar a perceber o seu ritmo, interagir com ela, mesmo ainda lá dentro, é mágico. Nos primeiros dias, olhava para a minha filha, e só conseguia pensar como é um verdadeiro milagre o desenvolvimento de um ser tão perfeito dentro de nós. É uma ligação extraordinária e que vale cada desconforto e sacrifício 🙂 boa sorte com o vosso projeto de aumentar a família 🙂 beiji

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