Atualidade e Curiosidade

Pai na sala da cesariana

Venho hoje falar de um tema polémico, sei que não vou agradar a muita gente, mas eu tenho o blogue para dar a minha opinião, não para agradar a gregos e troianos, até porque isso não é possível.

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Foto retirada de: http://observador.pt/2016/04/19/pai-do-bebe-passa-poder-acompanhar-cesariana/

 

Saiu ontem (aqui) o despacho que permite ao pai assistir à cesariana, o que não era permitido até então.

Vou falar como enfermeira, que exerce funções de anestesia – não costumo dizer que sou enfermeira de anestesia, porque não fiz a pós-graduação em anestesia, o que sei aprendi no campo e a estudar sozinha -, e vou falar, também, como utente e mãe. Creio ser interessante a conjugação destas duas versões.

Estou parada há largos meses, por causa de uma gravidez de risco e a licença de maternidade mas, enquanto trabalho, costumo estar nas salas de cesarianas, as programadas e as de urgência. Por isso mesmo, aqui vai a minha opinião.

1. Não devemos esquecer que a cesariana é uma cirurgia, e de barriga aberta. É uma intervenção que poderá impressionar os mais sensíveis. Por ser uma cirurgia, há uma série de normas e passos que devem ser cumpridos, para obedecer à boa prática, e proteger a mãe, o filho e os profissionais;

Assim sendo, caso os pais decidam assistir ao nascimento do seu filho por cesariana, devem estar cientes de que uma sala de cirurgia é um ambiente controlado, cujas normas devem ser rigorosamente respeitadas, e que deve ter em atenção, e respeitar, TODAS as normas que os profissionais da sala de cirurgia lhe ensinam.

 

2.É preciso ter em atenção que, numa cesariana, o número de profissionais (enfermeiros e médicos) dentro da sala de cirurgia é o mesmo que em qualquer outra cirurgia, com a diferença que, numa cesariana, temos dois utentes e não um. Assim sendo, é uma intervenção que requer uma ainda maior atenção e pronta atuação, por parte dos profissionais.

O que quero com isto dizer é que, o pai deve ser um elemento estabilizador dentro da sala, tranquilizar a mãe, segurar-lhe a mão, dizer-lhe palavras de conforto e segurança, sempre ficando no espaço que os enfermeiros e médicos lhe destinem, tentando ao máximo não interferir nas atividades dos profissionais, de modo a não influenciar negativamente a sua atuação e, consequente, a segurança dos seus entes mais queridos.

Assim, sugiro aos pais que ponderem bem o facto de serem capazes de se “portar bem” numa sala de cirurgia e, caso sintam que não são capazes, não vão. Se, a meio da cesariana, se sentirem incapazes de lá continuar, que peçam a alguém para os encaminhar para fora, sempre sem interferir com a cirurgia.

3.Apesar da cesariana ser uma cirurgia, é o momento de nascimento de um filho. É normal, é saudável, que o pai queira estar presente. São inúmeras as vezes em que as mães falam nos pais durante a cesariana, que se mostram ansiosas que o pai conheça o filho. Não me sai da lembrança uma anestesista do meu serviço que, depois do bebé nascer, e assegurado que está tudo bem com ele e a mãe, tira uma foto ao bebé, pede o número de telefone do pai e manda-lhe uma mensagem de imagem, a apresentar o novo membro da família. É uma atitude nobre.

4.Senti falta da presença do meu marido na minha cesariana, senti que faltava ali um elemento importantísssimo, mas a minha cesariana foi de urgência, e aqui entramos num campo importante de se referir.

Diz o despacho: “Sempre que a equipa médica de uma instituição hospitalar decida proceder a uma cesariana, o/a médico/a obstetra responsável deve avaliar da existência de uma situação clínica grave que desaconselhe a presença num bloco operatório de um/a acompanhante e deve transmitir esta informação à parturiente.”. Ora aqui está uma questão importante; caso os profissionais responsáveis pela cirurgia, considerem que, por razões de segurança e pela situação clínica, é desaconselhado que o pai assista à cesariana, pode proibir a sua presença, e é importante que o pai respeite esta decisão. 

Muito frequentemente os utentes lembram-se dos seus direitos, mas esquecem-se dos seus deveres. E é dever de um pai zelar pela segurança da sua mulher e filho, devendo, nesse sentido, respeitar os profissionais que sabem o que estão a fazer.

Concluindo: Sei que vai ser mais complicado atuar com um pai na sala porque, mesmo nas cesarianas de rotina, existem situações que descontrolam, e o pai pode ser um elemento destabilizador na sala de cirurgia, ao ver a agitação. Mas, ainda assim, concordo com esta medida. Só espero que as pessoas sejam sensatas e respeitem e não compliquem o trabalho que deve ser feito e bem feito.

Como em tudo, é preciso bom-senso e respeito.

 

14 Comments

  1. Olha nem de proposito, o meu marido sem ler o teu artigo mal soube da noticia disse o mesmo 🙂
    Pediu-me desculpas, mas disse que nao se ia sentir a vontade no caso de eu precisar de cesariana, por todas as razoes que disseste acima, mas em relacao ao parto natural vai estar ao meu lado a dar-me a mao 🙂
    So um exemplo, quando fui submetida a laparoscopia no final de 2015, ele contou-me, que em enquanto eu estava a ser operada, um marido de outra mulher que tambem estava a ser operada fez um escandalo sem sentido so porque achava que a mulher estava a demorar muito tempo na sala de operacoes… nos so nos perguntamos, se esse senhor tivesse de assistir a uma cesariana, como sera que se iria comportar? E que ele faltou ao respeito a todo o pessoal do hospital que nao lhe sabia dar a resposta que ele queria… gente mais triste nao ha 🙁
    Bjinhossss

  2. T.

    Concordo com tudo o que dizes e acho que numa cirurgia deste género as pessoas têm mais é de confiar nos profissionais e fazer tudo o que lhes indicarem. Tive pena de o meu marido não estar presente na minha cesariana, mas também foi de emergência e, nesse caso, ainda não entendi se ele poderia ter assistido ou não. Foi tudo em tão poucos minutos que nem sei se teria dado tempo para ele se preparar e entrar.

  3. Bruna Loureiro

    A parte da fotografia tocou-me de uma forma especial 🙂 Não me lembro da primeira vez que vi a Margarida mas sei que ter uma fotografia dela logo no momento que nasceu dá pelo menos uma ideia muito pequenina de como foi… este momento que de certeza é indescritível…

  4. Olá Ana! Maravilhoso texto. Muito simples de compreender e com toda a informação que é importante.
    Como mãe que já passou por duas cesarianas, confesso que é uma boa notícia! Acredito que o meu marido gostaria de ter estado junto de mim, no seu devido lugar, em vez de amargurar na sala de espera! A primeira filha foi provocada às 41 semanas e 12 horas depois de dar entrada, já sem água, acabou por ser uma cesariana de urgência. Contudo, estava muito calma e só assim foi porque não dilatava. Na segunda, sentei-me eu própria às 40sem+5dias na sala onde realizei a cesariana (eletiva). Certamente ele poderia estar lá pois fiz uma intervenção dita”normal”.
    Deixo ainda aqui a minha manifestação de carinho e reconhecimento pelas anestesistas que me acompanharam. Ambas mulheres, também elas mães e que foram de uma ternura e gentileza admirável! Nenhuma tirou a foto pois estavam mais preocupadas comigo e o meu estado (apesar de tudo ter corrido bem) mas fizeram um esforço para que não se perdesse tempo para que eu fosse encaminhada assim que possível para o recobro de modo a que o pai pudesse juntar-se a nós!
    Hoje, 8 anos depois da primeira e quase 4 da segunda, sei que uma terceira será também ela cesariana… e confesso que esta notícia facilitou essa mesma decisão!
    até breve, CSP

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