Mãe, mas Mulher

É para ti que escrevo, menina linda dos olhos doces… mas tristes!!!

Fui ao supermercado e, provavelmente porque já lá nos encontrámos algumas vezes, entre um corredor e o outro, lembrei-me de ti.

De seguida apeteceu escrever-te, em privado, tudo o que me veio à cabeça quando me lembrei de ti. Decidi escrevê-lo aqui, mais discretamente, na esperança de que estas palavras te ajudem a ti e a mais algumas que precisem.

Vejo em ti uma mulher jovem mas madura, outrora cheia de planos e sonhos, vejo-te saltitante, sorriso rasgado, peito aberto para as balas. E um dia elas vieram, não mataram mas deixaram marcas. Saraste a ferida, mas as cicatrizes doem, mais frequentemente do que dói um joelho com as mudanças do tempo.

E tu tens noção disso, mas as lutas hoje são outras – internas – e tens uma família para cuidar. O teu bem mais precioso, que cuidas e proteges tanto quanto podes, talvez mais do que deves. Porque ao cuidar dos outros, muitas vezes esquecemo-nos de cuidar de nós. Ao satisfazer as necessidades dos outros, vemos muitas das nossas insatisfeitas, mas achamos estar tudo bem, porque achámos ser suficiente o que fazemos pelos outros.

Deixa-me que te diga que todas quebramos – eu já quebrei – e, frequentemente, continuamos a jornada quebradas porque achamos que é temporário, que é uma fase, que tudo vai melhorar e nós vamos rejuvenescer numa vitória da nossa filha ou marido-

O cansaço e a frustração passeiam connosco nos corredores do supermercado, disfarçados pela roupa bonita e pela maquilhagem cuidada, até que comprámos mais uma coisinha da prateleira, pensando lá deixar um bocadinho do cansaço e frustração, no lugar da peça que trazemos.

Todas quebramos, todas temos dores que um comprimido ou outro ajuda a amenizar, há sempre uma pílula dourada que ajuda a levantar da cama, mas é isso que queremos para nós?

“Eu só quero voltar a ser eu!!!”. Sorridente, mas um sorriso verdadeiro; dinâmica, sem ser vencida pelo medo; confiante, fortalecida pela maturidade que as frustrações passadas me deram.

“Eu só quero voltar a ser eu!!”. Mãe, esposa, mas a Ana também! Sentir que me sou útil, que tenho orgulho em mim como MULHER.

“Eu só quero voltar a ser eu!”. Mesmo que em caminhos totalmente diferentes dos que imaginei. Mesmo em caminhos fora da minha zona de conforto. Porque são esses que me vão fazer crescer, sair da caixa e sentir que sou eu.

E eu estou aqui linda!!!

Beijo

Mãe, mas Mulher, Ser enfermeiro insatisfeito!, Vida

Eu sei que fico demasiado tempo sem escrever. Melhor dizendo, sem publicar. Porque até começo a escrever, mas depressa penso “mas quem é que vai querer ler os desabafos de uma mulher, mãe, enfermeira?”. Acabo por apagar o texto, desligar o computador e vou dormir.

Acredito que quem tem um blogue deve passar boas energias para esse lado, portanto calo-me quando não sinto que o vá fazer. Mas também acredito que faz falta a quem está desse lado, ler que quem está deste não tem uma vida perfeita e é mais uma, como tu que estás aí a ler-me.

Sou mãe, com dias em que me sinto uma super mãe, capaz de tudo, outros em que não me sinto capaz de carregar o peso da minha filha no colo porque as energias quase se acabaram no turno de 12 horas a correr atrás de vidas, umas salvas, outras perdidas.

Porque sou enfermeira, inserida em equipas de urgência e, infelizmente, a desgraça de muita gente, passa-me pelas mãos. E pesa nos meus ombros a responsabilidade de estar bem na altura certa, de responder no segundo que faz a diferença entre uma família manter deste lado de cá, da vida, um pai, uma mãe, um filho.

Vejo pais a sofrer com os filhos doentes, assisto a filhos despedirem-se, sem pré-aviso, dos pais, leio nos seus olhos a dúvida se eu carrego nas costas alguma culpa por aquele desfecho.

Sou enfermeira, sujeita a sigilo profissional, imensas vezes me apetece partilhar convosco histórias de vida com as quais me cruzo. Umas muito tristes, outras muito felizes, outras ainda heróicas, algumas inspiradoras. Mas não posso, mas queria, porque é nessas histórias que, muitas vezes, vou buscar força, energia, inspiração, para continuar a fazer o que faço, para não me queixar mais da minha vida, para valorizar o que tenho.

Porque muita gente não pensa nisto mas nós, enfermeiros e enfermeiras, estamos não raramente sujeitos a um stress inimaginável, não passível de se transmitir ao doente e/ou família, que só partilhamos com aqueles colegas com quem nos sentimos mais à vontade. Este stress, muitas vezes mudo, esta lágrima que não podemos deixar fugir em frente ao doente e/ou família, repercute-se no meu corpo e cabeça, na minha disposição para a família e socializar. E ninguém vê isto. Ninguém percebe, do lado de fora, a intensidade e frequência disto. Os governantes do nosso País não sentem as nossas dores nem as dores de quem cuidamos e relativiza tudo isto para a inerência da profissão, para onde só vai quem tem vocação (diz quem acha que assim é), diz muitas vezes quem está de fora que somos pagos para isso!

Vou dar-vos uma novidade: NÃO SOMOS!!!

No meu disto tudo, sinto-me uma felizarda por acordar com saúde, por ter uma família e bons amigos do meu lado, que vivem com saúde também. E, enquanto assisto (e resisto) a desfechos tristes, contenho as lágrimas pelas dores dos outros, confortada pela certeza de que faço o melhor que posso e de que tenho a os meus à minha espera.

Como mãe e esposa, faço por não trazer para casa o cansaço e a soturnidade de que me sinto portadora, tantas e tantas vezes… tento ser a mãe, apenas a mãe, tento ser a esposa, apenas a esposa, sem ser a enfermeira que saiu de rastos do seu turno, e tento passar para a minha família a alegria que sinto por os ter comigo.

Nem só de turnos tristes vive uma enfermeira e também salvamos vidas, melhoramos qualidade de outras, contribuímos para um final feliz ou para um início de vida que corresponda às expetativas de quem está ao nosso cuidado.

Mas é por isto que muitas vezes acabo por não vos escrever. Porque deste lado pesa o cansaço e, muitas vezes, a culpa por me sentir feliz por comparar a minha vida com as tragédias dos outros. Porque tenho receio de falar demais, de sentir demais, de transmitir demais… Se calhar hoje já o fiz!

 

A aventura da maternidade, Beleza e bem-estar, Mãe, mas Mulher

Hoje de manhã, enquanto me barrava nos meus cremes depois do banho, dei por mim a pensar. Celulite, gordurinhas… A barriga que salta das calças de ganga, quando me sento.

Ai, ai, ai.

Aqui há uns tempos, todas estas coisas me deprimiam e deixavam a pão e talinhos de aipo, a correr para o ginásio 7 vezes por semana, num contra-relógio tipo “Operação Biquini”.

Hoje dou por mim a pensar “E então?”

Sim, tenho gordurinhas, celulite, pedaços de carne a mais a saltar da calça, mas desculpem lá a expressão “Que se lixe”!!!!

Duas cirurgias a um pé, com o repouso inerente, aumento de muitos quilos durante a gravidez que, apesar de já terem desaparecido, deixaram um rasto do peso da gravidade e muitas tainadas com família e amigos são os responsáveis por isto.

“QUE SE LIXE!!!”

Com celulite e gordurinhas mas segura de mim e feliz pelo que tenho vivido 🙂

Quem mais se sente assim!

A aventura da maternidade, Mãe, mas Mulher

Não me crucificem já pelo título deste texto, confiram-me o benefício da dúvida e leiam o resto!

Sou uma mãe sortuda, cujo rebento se aguentou até aos 10 meses sem ficar doente e, se calhar por isso mesmo, é que me custa tanto.

Por isso mesmo eu digo que ser mãe é uma treta, porque faz-nos sentir impotentes, faz-nos querer sofrer no lugar deles, faz-nos chorar com o choro deles, faz-nos perder noites de sono.

Ser mãe é uma treta porque nos fragiliza, nos deixa constantemente a pensar se estamos a fazer o correto e da melhor forma.

Ser mãe é uma treta porque nos deixa em constante sobressalto. Um choro de irritação deles descoordena-nos, um esgar de dor faz-nos doer mais que as dores do parto.

Por isso digo que ser mãe é uma treta, porque deliberadamente arranjei mais um ser para amar incondicionalmente e me preocupar com o que merece e o que não preocupação, porque arranjei mais um motivo para sentir um aperto no coração, porque ele é pequeno demais para albergar tamanho amor.

Ser mãe é uma treta!!!

Mãe, mas Mulher

FINALMENTE POSSO CONTAR!
Aqui está uma novidade que andava ansiosa por vos contar! O nosso grupo Mãe, mas mulher virou rubrica de uma revista – Cidade21.

A partir de agora, com a ajuda de membros do grupo, escreveremos sobre temas do nosso interesse, nestas duas páginas!

A ideia é chegar a mais mulheres, informá-las, partilhar a nossa experiência e, claro está, ajudar a fazer conhecer o trabalho de alguns membros!

Pretendo com este grupo reunir mamãs que se motivam, que ajudam a que cada uma de nós não se sinta sozinha, nem culpada, quando se sente cansada, quando precisa de um tempo para si. Neste grupo fala-se de tudo, sem tabus. Os nossos filhos são a nossa prioridade, mas nós também somos importantes. Afinal, se eu não cuidar de mim, quem cuida dos meus filhos?

 

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