Mãe, mas Mulher, Ser enfermeiro insatisfeito!, Vida

Eu sei que fico demasiado tempo sem escrever. Melhor dizendo, sem publicar. Porque até começo a escrever, mas depressa penso “mas quem é que vai querer ler os desabafos de uma mulher, mãe, enfermeira?”. Acabo por apagar o texto, desligar o computador e vou dormir.

Acredito que quem tem um blogue deve passar boas energias para esse lado, portanto calo-me quando não sinto que o vá fazer. Mas também acredito que faz falta a quem está desse lado, ler que quem está deste não tem uma vida perfeita e é mais uma, como tu que estás aí a ler-me.

Sou mãe, com dias em que me sinto uma super mãe, capaz de tudo, outros em que não me sinto capaz de carregar o peso da minha filha no colo porque as energias quase se acabaram no turno de 12 horas a correr atrás de vidas, umas salvas, outras perdidas.

Porque sou enfermeira, inserida em equipas de urgência e, infelizmente, a desgraça de muita gente, passa-me pelas mãos. E pesa nos meus ombros a responsabilidade de estar bem na altura certa, de responder no segundo que faz a diferença entre uma família manter deste lado de cá, da vida, um pai, uma mãe, um filho.

Vejo pais a sofrer com os filhos doentes, assisto a filhos despedirem-se, sem pré-aviso, dos pais, leio nos seus olhos a dúvida se eu carrego nas costas alguma culpa por aquele desfecho.

Sou enfermeira, sujeita a sigilo profissional, imensas vezes me apetece partilhar convosco histórias de vida com as quais me cruzo. Umas muito tristes, outras muito felizes, outras ainda heróicas, algumas inspiradoras. Mas não posso, mas queria, porque é nessas histórias que, muitas vezes, vou buscar força, energia, inspiração, para continuar a fazer o que faço, para não me queixar mais da minha vida, para valorizar o que tenho.

Porque muita gente não pensa nisto mas nós, enfermeiros e enfermeiras, estamos não raramente sujeitos a um stress inimaginável, não passível de se transmitir ao doente e/ou família, que só partilhamos com aqueles colegas com quem nos sentimos mais à vontade. Este stress, muitas vezes mudo, esta lágrima que não podemos deixar fugir em frente ao doente e/ou família, repercute-se no meu corpo e cabeça, na minha disposição para a família e socializar. E ninguém vê isto. Ninguém percebe, do lado de fora, a intensidade e frequência disto. Os governantes do nosso País não sentem as nossas dores nem as dores de quem cuidamos e relativiza tudo isto para a inerência da profissão, para onde só vai quem tem vocação (diz quem acha que assim é), diz muitas vezes quem está de fora que somos pagos para isso!

Vou dar-vos uma novidade: NÃO SOMOS!!!

No meu disto tudo, sinto-me uma felizarda por acordar com saúde, por ter uma família e bons amigos do meu lado, que vivem com saúde também. E, enquanto assisto (e resisto) a desfechos tristes, contenho as lágrimas pelas dores dos outros, confortada pela certeza de que faço o melhor que posso e de que tenho a os meus à minha espera.

Como mãe e esposa, faço por não trazer para casa o cansaço e a soturnidade de que me sinto portadora, tantas e tantas vezes… tento ser a mãe, apenas a mãe, tento ser a esposa, apenas a esposa, sem ser a enfermeira que saiu de rastos do seu turno, e tento passar para a minha família a alegria que sinto por os ter comigo.

Nem só de turnos tristes vive uma enfermeira e também salvamos vidas, melhoramos qualidade de outras, contribuímos para um final feliz ou para um início de vida que corresponda às expetativas de quem está ao nosso cuidado.

Mas é por isto que muitas vezes acabo por não vos escrever. Porque deste lado pesa o cansaço e, muitas vezes, a culpa por me sentir feliz por comparar a minha vida com as tragédias dos outros. Porque tenho receio de falar demais, de sentir demais, de transmitir demais… Se calhar hoje já o fiz!

 

A aventura da maternidade, Beleza e bem-estar, Mãe, mas Mulher

Hoje de manhã, enquanto me barrava nos meus cremes depois do banho, dei por mim a pensar. Celulite, gordurinhas… A barriga que salta das calças de ganga, quando me sento.

Ai, ai, ai.

Aqui há uns tempos, todas estas coisas me deprimiam e deixavam a pão e talinhos de aipo, a correr para o ginásio 7 vezes por semana, num contra-relógio tipo “Operação Biquini”.

Hoje dou por mim a pensar “E então?”

Sim, tenho gordurinhas, celulite, pedaços de carne a mais a saltar da calça, mas desculpem lá a expressão “Que se lixe”!!!!

Duas cirurgias a um pé, com o repouso inerente, aumento de muitos quilos durante a gravidez que, apesar de já terem desaparecido, deixaram um rasto do peso da gravidade e muitas tainadas com família e amigos são os responsáveis por isto.

“QUE SE LIXE!!!”

Com celulite e gordurinhas mas segura de mim e feliz pelo que tenho vivido 🙂

Quem mais se sente assim!

A aventura da maternidade, Mãe, mas Mulher

Não me crucificem já pelo título deste texto, confiram-me o benefício da dúvida e leiam o resto!

Sou uma mãe sortuda, cujo rebento se aguentou até aos 10 meses sem ficar doente e, se calhar por isso mesmo, é que me custa tanto.

Por isso mesmo eu digo que ser mãe é uma treta, porque faz-nos sentir impotentes, faz-nos querer sofrer no lugar deles, faz-nos chorar com o choro deles, faz-nos perder noites de sono.

Ser mãe é uma treta porque nos fragiliza, nos deixa constantemente a pensar se estamos a fazer o correto e da melhor forma.

Ser mãe é uma treta porque nos deixa em constante sobressalto. Um choro de irritação deles descoordena-nos, um esgar de dor faz-nos doer mais que as dores do parto.

Por isso digo que ser mãe é uma treta, porque deliberadamente arranjei mais um ser para amar incondicionalmente e me preocupar com o que merece e o que não preocupação, porque arranjei mais um motivo para sentir um aperto no coração, porque ele é pequeno demais para albergar tamanho amor.

Ser mãe é uma treta!!!

Mãe, mas Mulher

FINALMENTE POSSO CONTAR!
Aqui está uma novidade que andava ansiosa por vos contar! O nosso grupo Mãe, mas mulher virou rubrica de uma revista – Cidade21.

A partir de agora, com a ajuda de membros do grupo, escreveremos sobre temas do nosso interesse, nestas duas páginas!

A ideia é chegar a mais mulheres, informá-las, partilhar a nossa experiência e, claro está, ajudar a fazer conhecer o trabalho de alguns membros!

Pretendo com este grupo reunir mamãs que se motivam, que ajudam a que cada uma de nós não se sinta sozinha, nem culpada, quando se sente cansada, quando precisa de um tempo para si. Neste grupo fala-se de tudo, sem tabus. Os nossos filhos são a nossa prioridade, mas nós também somos importantes. Afinal, se eu não cuidar de mim, quem cuida dos meus filhos?

 

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Mãe, mas Mulher, Vida

O Boteco decidiu refletir este mês. O vídeo que catalisa esta reflexão encontra-se neste link https://www.youtube.com/watch?v=f8eU5Pc-y0g

O vídeo tem como título “The 3 most important things to ask yourself”, ou seja, as 3 auto-questões mais importantes e quem nos fala dá pelo nome de Vishen Lakhiani. Mostraram-me este vídeo no sentido de me ajudar a refletir sobre algumas questões essenciais, posso garantir-vos que vale a pena ouvi-lo. O único problema é que este vídeo está em Inglês e não tem legendas, e acredito que todos mereciam perceber estas palavras.

Este senhor começa o vídeo de uma maneira interessante, dizendo que acontece frequentemente “acordarmos” aos 40, no caminho para o trabalho; o trabalho que fomos forçados a escolher na idade em que, por lei, ainda nem podíamos comprar uma cerveja.  Desenvolve depois uma pertinente reflexão sobre o que realmente queremos e aquilo que a sociedade, dentro dos seus padrões estabelecidos, nos faz crer que queremos.

Ele acredita que obtemos as nossas respostas se respondermos a três questões essenciais. Essas três questões são:

  1. What do I want do experience? – O que quero experienciar? O que quero viver?
  2. How do I want to grow? – Como quero crescer?
  3. What do I want to contribute to the planet? – O que quero dar como contributo ao planeta?

Já falei aqui no blogue há uns tempos sobre escolhermos a nossa profissão cedo demais. Quando decidi ser enfermeira decidi tão assertivamente, sabia tão bem que era isto que queria, uma certeza de uma menina de 17 anos que me deixa, não raras vezes, desmotivada e triste. Se a escolha foi a certa e o caminho o errado não sei, estou a descobrir, estas questões ajudam um pouco.

Fiz este exercício sagradamente, escrevi as respostas, leio-as algumas vezes, para me ir recordando do que quero, para não me esquecer e não me conformar, só porque a sociedade acha que tenho o que se deve. Acho que todos os dias o faço um pouquinho, retiro-me do meu corpo e observo-me de fora, numa tentativa de ver o que não me agrada, de mudar o que sinto que deve ser mudado, de melhorar o que ainda sinto que pode ser melhorado e depois volto, reformulo, refaço, acerto da próxima e vou redefinindo vontades, metas e caminhos.

Espero chegar lá! Onde? Não sei bem! Lá onde me sinta completamente realizada!

Para lerem as reflexões das outras botequeiras, cliquem nos seguintes links:

Contador d’estórias

Life’s Textures

Espresso and Stroopwafel

A Limonada da Vida