Boteco das Tertúlias

Lá no Boteco decidiu-se falar sobre profissões este mês. Upa lá lá, que isso tem pano para mangas, podia escrever um relatório sobre isso, mas não o vou fazer, porque gosto que leiam os meus textos até ao fim e com interesse.

Brevemente fará 11 anos que me licenciei enfermeira. 11 anos!!! Verdade.

Porque decidi seguir Enfermagem? Sinceramente não sei, só sei que era isso que queria ser e a única coisa para a qual concorri.

Tive a sorte de começar a trabalhar muito pouco tempo depois de acabar o curso e ao lado de casa – acho que acabei o curso no final dos tempos melhores da Enfermagem. Os primeiros dois anos como enfermeira foram exclusivamente para trabalhar, aprender, assimilar, trabalhar, trabalhar, trabalhar. Depois destes dois anos, como bichinho carpinteiro que sou, sempre fui algo mais que enfermeira.

Já vesti o papel de orientadora de alunos, em tempo de serviço e fora dele, queimei muita pestana e voz como formadora, arruinei com o resto da pestana que sobrou com o Mestrado que tirei. Fora da Enfermagem, posso dizer-vos que também dei umas cartas como manicure e pedicure e fiz muita unha de gel, seguiram-se umas aventuras com vendas online. 

Neste momento sou apenas e só uma enfermeira, mãe, esposa, dona de casa e, claro está, autora deste blogue (não me habituo a chamar-me de bloguer).

Se gosto do que faço? Gosto!

Se me imagino a fazer isto o resto da vida? Talvez não.

O que gostaria de fazer? Eh pahhhhhhhh!!!! Fui tirar um Mestrado porque queria dar aulas, orientar alunos, ensinar o que sei e aprender enquanto ensinava. Mas foi uma época tão dura e tão má da minha vida esses dois anos (duríssimos a trabalhar, dar formação, estudar, escrever uma tese) que decidi que não iria estudar tão cedo, e o mercado da educação da saúde está “viciado” (se é que me percebem), de modo que nunca consegui, sequer, dar umas horinhas numa escola.

Podia dar-vos aqui uma seca sobre o estado da Enfermagem, sobre como somos desvalorizados, mal pagos, blá blá, blá… Mas não me apetece, lido com isso todos os dias, e não me faria bem estrebuchar para aqui. Se quiserem perceber um pouco como me sinto no final de um turno cansativo, ou porque estão tão desmotivados os enfermeiros, leiam aqui e aqui.

O que queria? Não me sentir mais uma no meio da multidão, sentir que o meu trabalho é respeitado e eu não sou apenas mais um número mecanográfico, acordar todos os dias com um pulo fora da cama de tão ansiosa que estou por trabalhar, de contribuir com o meu cunho. Como? Onde? Em que contexto? Não faço ideia. Sinto frequentemente que tenho algo de muito bom reservado para mim (leiam aqui). A ver vamos se acontece.

Para saberem mais sobre as profissões das frequentadoras do Boteco, leiam aqui, aqui, aqui e aqui.

Ser enfermeiro insatisfeito!

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Esta foto de comemoração do Dia Internacional do Enfermeiro, publicada pela Ordem dos Enfermeiros, faz-me refletir e questionar muita coisa!

Sou enfermeira há 11 anos e se me perguntarem se gosto de o ser, respondo genuinamente SIM! Adoro a área da saúde, a explicação lógica e interligada das coisas, assistir aos resultados das nossas intervenções, cuidar da pessoa dentro dos limites do que me é possível (entenda-se que trabalho num Bloco Operatório, portanto cuido dos utentes num reduzido espaço de tempo – quase sempre – pelo que, nessas horas que o utente está comigo tento fazer o melhor que posso e sei).

Mas não gosto de ser enfermeira nos moldes em que sou. Os hospitais estão imbuídos de uma visão economicista que não é compatível com o cuidar, verdadeiramente intrínseco e personalizado. Somos, todos os dias, pressionados a produzir, a assumir cada vez mais utentes a nosso cargo simultaneamente, a reduzir cada vez mais os custos.

Ressalvo apenas que não acho que os custos não devam ser controlados, claro que devem, mas não ao ponto de prejudicarem os cuidados prestados.

E agora deixo algumas questões, aos colegas enfermeiros, e até à própria Ordem dos Enfermeiros.

Parabéns heróis“??? Heróis? Eu não quero ser heroína. Quero chegar ao meu local de trabalho, fazer o que me é devido, sair de consciência limpa de que fiz o meu melhor e, se possível, sair contente, porque contribuí para a melhoria das pessoas que cuidei. Não quero ser heroína porque assumi mais doentes do que devia, porque prestei cuidados a correr porque tinha mais cirurgias agendadas do que devia, ou porque mal comi ou fui à casa de banho durante as 12 horas do turno, isto para fazer tudo o que me solicitaram. Não quero ser heroína, quero ser enfermeira.

Ninguém está sozinho“? Acreditam mesmo nisto? Quando assistimos aos recém-formados, profissionais excelentemente formados, valorizados pelas Unidades de Saúde de outros países, corridos pelo País que os formou brilhantemente? Não estamos sozinhos quando assistimos a serem contratados enfermeiros a ganharem o salário mínimo, ou a não terem direito a integração e a serem lançados para a prestação de cuidados (estamos a esquecer-nos que vão trabalhar com vidas?)????

Se não estivéssemos sozinhos estavámos unidos a lutar por condições dignas de prestação de cuidados para os utentes, por rácios adequados, por material de qualidade, por horas suplementares pagas como devem ser, por horas extras pagas e não contabilizadas em banco de horas, e podia continuar, mas vou ficar por aqui.

Não seremos todos heróis sozinhos, solitários?

Deixo apenas esta pequena reflexão, e espero as vossas opiniões. Ainda assim, PARABÉNS aos enfermeiros que dão o melhor de si.

 

Se tiverem curiosidade de ler entrevistas sobre “Ser enfermeiro insatisfeito”, acedam aqui.

 

Ser enfermeiro insatisfeito!

Esta semana andei um bocadinho desaparecida, eu sei!!! Turnos rotativos, sonos desencontrados, tarefas de casa e vida familiar, mantiveram-me mais longe deste meu mundinho!!! Hoje estou de volta e trago-vos mais uma entrevista com um enfermeiro que já deixou de o ser!!! Estive a pensar e a próxima será a minha 🙂 As minhas respostas às minhas perguntas!!! Vamos ver o que o Fábio tem a dizer.

Conta-nos um pouco sobre ti.

Olá! Chamo-me Fábio, tenho 29 anos, sou de Lisboa e sempre estudei cá.

Qual o teu percurso  académico/formativo?

É complicado! Ingressei em Enfermagem na 1ª fase de candidatura na Escola Superior de Enfermagem Maria Fernanda Resende, em Lisboa, mas tinha-me candidatado também à Faculdade de Medicina Veterinária na 2ª fase, por ser o curso que sempre objetivei.  Apesar de ter entrado, como estava a gostar bastante da experiência e os conteúdos me faziam sentido, permaneci em Enfermagem. Acabei a minha licenciatura em 2007 com 21 anos e fui para o mundo do trabalho. Posteriormente iniciei e acabei a licenciatura e mestrado em Medicina Veterinária enquanto trabalhava como enfermeiro.

 

E a tua experiência profissional?

Trabalhei no Hospital da Cruz Vermelha Portuguesa em Lisboa no serviço de Ortopedia e Unidade de Transplante Renal e posteriormente no serviço de Cirurgia geral e Oncológica. Posteriormente, já como Médico Veterinário, trabalhei no Hospital Veterinário Central e encontro-me no Hospital da Associação Zoófila Portuguesa.

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Ser enfermeiro insatisfeito!

Hoje trago-vos a entrevista com o autor do blogue “Porque deixei de ser enfermeiro” (aqui). Um enfermeiro, que não pretende deixar de o ser, mas que se confessa, todos os dias, desiludido com os enfermeiros, no seu blog. Vamos ver o que ele tem para nos dizer.

Conta-nos um pouco sobre ti.

Olá! Não posso contar muito sobre mim. Continuo a fazer esforços para manter o meu anonimato porque, como sabes, o meu blog por vezes aborda assuntos delicados e torna-se imprescindível mantê-lo assim, para que não haja quaisquer condicionalismos à liberdade de expressão e opinião. Continue Reading